8.8.10

Left Handed Poetry, XXI





desmandos incertos
atravessam-me em sonho
causam-me horror
náusea
secam-me os lábios
sangram-me os lábios
o sono já não me basta
sou um infeliz
ronda-me
à vontade
um saber esquecido
e que por razão nenhuma neste mundo
escolheu a mim para se fazer nascer

sou honesto
digo-me a mim que não compreendo de todo
não me cabem na ciência pouca de minha casa coisas tão elevadas
mesmo assim sou assaltado por elas
e sangrando-me a boca
os dentes grudados às paredes da boca
a língua raspando como uma colher de pedreiro no céu da boca
falo

ninguém ouve
todavia
não há para quem falar

é uma condenação para quem descerra os lábios e fala
falar para si
refutar os próprios argumentos
fazer desmoronar as próprias teses
afinar com posição que nem ao menos toma conhecimento
apenas para não cair em contradição
e devolver ao silêncio do sono
o som do que não foi dito





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