29.8.10

Prometido é devido

Como havia comentado no post anterior, anunciaria aqui o 'big bang' de meu novo universo poético. Chama-se O balcão das artes impuras.

Agora, além da poesia propriamente dita, vou explorar um pouco mais outras coisas que me desacomodam, especialmente a fotografia. E também darei mais atenção para minha prosa, que tenho deixado de lado por preguiça ou antipatia mútua. Meus contos ficaram revoltados de uns tempos para cá.

Por que artes impuras

Não sei. 

Vamos ver quando, e se, vou saber responder.

Quem quiser visitar, está cá: http://dasartesimpuras.blogspot.com



Um abraço, e aguardo visitas


V.






26.8.10

O café acabou

Queridos amigos e seguidores deste blog.

É com algum pesar, mas também com algum alívio, que anuncio o fim do Um resto de café frio.

Foi através dele que meu eu-poético se revelou como é, nasceu para sua existência, e também entendeu quando seria a hora de encerrar-se. E, por encerrar-se, meus queridos, deve-se entender: permanecer fechado, abrigado, guardado. Este universo criado por ele, e para ele, é um mundo egocêntrico: não admitia outra divindade, posto que ele próprio era o Criador; admitia outros seres, mas ele próprio os recriava à sua imagem e semelhança; estabeleceu as próprias leis que regiam a maneira de ser e de existir nesse universo, mesmo sabendo que roubava estas leis dos universos de outros demiurgos, outros eus-poéticos, como as presentes nas obras de Marcia Szajnbok, Ju Blasina, Henry Bugalho, Maria de Fátima Santos, José do Espírito Santo, Caio Rudá, Carlos Alberto "Davissara" Barros, Carlos Drummond de Andrade e Mário Quintana.

Estes meses em que estivemos aqui eu e este ser-poético confuso, escuso e arredio, conheci muitos dos meus medos, meus demônios, minhas lentes para ver e entender como o mundo exterior se recria intimamente. E, também, para entender como e por que a poesia se revela, ou se transforma em mim.

O universo do Café Frio existe. Todavia, seu criador, essa voz que fala nos poemas, é a única criatura: confunde-se com a própria obra, como um deus pagão. Este eu-poético é o conjunto da obra. Ele vai continuar existindo aqui, para todos os que desejarem tentar entendê-lo. E, conhecendo a ele, será possível conhecer um pouco a mim também. Mas chegou o momento de nós, eu e o Café Frio dividirmos nossas existências.

Esta despedida não significa que eu, Volmar Camargo Junior, me afastarei da poesia. Significa, unicamente, que o que foi criado como sendo esta obra permanecerá aqui, nesta supra-realidade que é a web. Encerrada, sim. Concluída, muito provavelmente, não. Este eu-poético aqui deixou minha poesia grávida, e logo dará à luz um outro. Torço para que esse próximo demiurgo das minhas letras não queira ser um Zeus, que matou o próprio genitor. Se isso acontecer, talvez o Café Frio vomite todos os outros meus eus-poéticos que ele devorou avidamente durante um ano e nove meses, temendo ser destronado.

A todos os que nos acompanharam, meus sinceros agradecimentos. Nos encontraremos num outro universo poético.

Com carinho


V.




21.8.10

Left Handed Poetry, XXIX





vejo um campo vazio
se desse campo brotar semente
ninguém plantou
nasceu porque vento trouxe
passarinho deixou cair
ou
por descuido
por capricho
orgulho talvez de
um Criador que faz o que bem quer
sem nem perguntar se
não era
do campo
o sonho de ser
vazio






19.8.10

Left Handed Poetry, XXVIII





minhas canções de amor
são como as moedinhas
no fundo do açucareiro

só eu sei que estão lá
por que estão lá
e que valor têm

se alguém algum dia encontrá-las

vai voltar pra casa sem entender





17.8.10

Left Handed Poetry, XXVII






aqui
não
lá em casa
mas para que lado fica a minha casa?

nunca estive na minha própria
ou
se estive
esqueci

restou um caminho
aonde leva?
será mesmo que eu quero andar nele?

na dúvida
guardo o caminho no bolso
só não sei
se vou saber voltar

e quem é que vai saber
se eu voltar
ou se eu me for
ou se eu roubar o caminho?

e quem é que decide
se a casa que eu não conheço
(ou conheço? eu realmente não lembro)
deve ser uma casa para estar?

na dúvida
guardo a casa no bolso
só não sei
se vou querer entrar

e aqui
aqui é onde mesmo?
para isso a que chamam aqui
não tenho bolso que baste







Left Handed Poetry, XXVI

quero uma garrafa
de mentira boa
como companhia
uma como só as boas sabem
ser boas companheiras

quero o mundo bom
para jogá-lo no muro
pisar com força nos cacos
até que o mundo vire um bom açúcar

quero pegar umas duas doses dessa boa mentira
um punhado desse bom açúcar de mundo
um dos meus limões
que estes não me faltam
misturar e beber até que tudo volte a fazer sentido





Left Handed Poetry, XXV






a ilusão é um remédio de vida difícil:
a ciência diz que não existe
o mal que ele pretende curar

tem um gosto que contraria a moralidade
feito não de coisas que não deram certo
mas das que são definitivas no erro

sua prescrição seria proibida mas não foi

porque, até hoje, ninguém admitiu ter precisado dele